25/06/2026 08:11:00

Após eleições na Colômbia e Peru, direita comanda 58% da América do Sul

Vitórias de Abelardo de la Espriella, na Colômbia, e Keiko Fujimori, no Peru, consolidam maioria de governos de direita no subcontinente

Após eleições na Colômbia e Peru, direita comanda 58% da América do Sul - Notícias - Mato Grosso digital
As vitórias de Abelardo de la Espriella, na Colômbia, e de Keiko Fujimori, no Peru, mudaram o mapa político da América do Sul e colocaram a direita no comando da maioria dos governos da região. Com os dois resultados, países governados por líderes de direita, centro-direita ou extrema-direita passaram a representar 58,3% da população da região, com sete dos 12 países sul-americanos.
 
 
Atualmente, o grupo é formado por Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai e Peru. Do outro lado, Brasil, Uruguai, Venezuela, Guiana e Suriname são governados por líderes de esquerda ou centro-esquerda.
 
 
 
No Peru, Keiko Fujimori alcançou uma vantagem considerada irreversível na madrugada dessa quarta-feira (24/6). Embora o resultado ainda precise ser validado pela autoridade eleitoral, a candidata da direita abriu cerca de 42 mil votos de diferença sobre o esquerdista Roberto Sánchez.A vantagem foi impulsionada pelos votos de peruanos que vivem no exterior, onde Keiko obteve mais de 63% dos votos.
 
 
Já na Colômbia, Abelardo de la Espriella, candidato de extrema direita, foi declarado vencedor da eleição presidencial no último domingo (21/6), após uma disputa apertada contra o senador de esquerda Iván Cepeda. Segundo a apuração preliminar, De la Espriella recebeu 49,66% dos votos, contra 48,7% do adversário, uma diferença de aproximadamente 250 mil votos.
 
 
Tendência
A mudança acompanha uma tendência observada nos últimos anos na região. Depois de um período de predominância da esquerda no início dos anos 2000, conhecido como “onda rosa”, a direita voltou a ganhar espaço no continente.
 
 
Nos últimos meses, as eleições no Chile, na Bolívia e agora na Colômbia e no Peru consolidaram esse movimento. Em outubro de 2025, Rodrigo Paz foi eleito presidente da Bolívia, encerrando quase duas décadas de domínio da esquerda no país. Em dezembro do mesmo ano, José Kast venceu as eleições chilenas.
 
 
A alternância entre diferentes campos ideológicos, porém, não é novidade na América do Sul. Na década de 1990, predominavam governos de perfil conservador e liberal na economia. Em meados da década passada, o cenário se inverteu e a esquerda passou a liderar a maioria dos governos da região. Em 2015, oito dos 12 países sul-americanos eram governados por lideranças alinhadas à esquerda.
 
 
Para o cientista político Rogério Pereira, o avanço da direita é resultado de uma combinação de fatores econômicos e políticos.
 
 
“Instabilidades econômicas internas, crises políticas ligadas à corrupção e a frustração com promessas não cumpridas geram pressão popular por mudanças. A pequena capacidade de transformação dos governos, independentemente da ideologia, ajuda a explicar esses ciclos de poder”, afirma.
 
 
Segundo ele, a alternância entre direita e esquerda é um fenômeno recorrente na região e está relacionada à percepção de que os governos têm dificuldade para entregar resultados concretos. O cientista político Henrique Hellas avalia que o crescimento das candidaturas de direita e extrema-direita também está associado ao desgaste dos modelos políticos tradicionais.
 
 
“Existe uma rejeição grande ao modelo de política tradicional, somada à insegurança pública, à frustração econômica e ao desgaste dos governos em exercício. As candidaturas de direita têm conseguido transformar essas insatisfações em voto anti-establishment”, diz.
 
 
Impactos para o Brasil
Com a nova configuração regional, o presidenteLuiz Inácio Lula da Silva (PT) passa a governar em um continente majoritariamente liderado por governos de direita. Para Rogério Pereira, no entanto, o peso econômico do Brasil reduz a possibilidade de isolamento político.
 
 
“Por ser a maior potência econômica regional, o Brasil tende a influenciar as políticas locais dentro de uma esfera que não ultrapasse pontos críticos ideológicos. Pode haver maior resistência a algumas pautas sociais, mas poucos contratempos em temas econômicos”, diz.
 
 
Já Henrique Hellas vê um cenário de maior dificuldade para a articulação política do governo brasileiro. “Hoje o Brasil está muito mais isolado ideologicamente na América do Sul do que esteve nos mandatos anteriores de Lula, quando a esquerda era mais forte no continente”, afirma.
 
 
Possíveis alianças
A predominância de governos de direita também pode favorecer novas formas de cooperação regional. Segundo Rogério Pereira, temas como segurança pública e combate ao crime organizado devem ganhar espaço na agenda comum desses países. Ele cita o caso peruano, onde a preocupação com a violência e a insegurança foi um dos fatores que impulsionaram a candidatura de Keiko Fujimori.
 
 
Henrique Hellas afirma que a tendência é de aproximação em áreas como segurança, combate ao narcotráfico e disciplina fiscal, embora os governos tenham perfis distintos e não formem um bloco homogêneo. Apesar da atual maioria da direita, os analistas avaliam que o cenário ainda está longe de ser definitivo.
 
 
“A tendência de desgaste é natural em qualquer sistema político. A permanência prolongada de uma mesma orientação tende a gerar estagnação e novas demandas por mudança”, afirma Rogério Pereira.
 
 
Para Hellas, as democracias sul-americanas continuam sujeitas a alternâncias intensas entre diferentes campos ideológicos. “A reversão desse quadro dependerá do desempenho econômico, da segurança, da estabilidade institucional e da capacidade das forças políticas de reconstruírem sua credibilidade”, conclui.
 
 
 
 
Foto: Arte Metrópoles
Por: Giovanna Estrela / Metrópoles
 
 
 
 
 
 

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