30/07/2026 16:54:00
Chuvas atrasam colheita e elevam preços do café
Oferta de café segue pressionada no curto prazo
As chuvas registradas principalmente durante o mês de junho trouxeram desafios para a colheita da safra brasileira de café 2026/27 e alteraram a dinâmica do mercado, segundo análise da Consultoria Agro Itaú BBA. Embora a colheita tenha começado em maio, o excesso de precipitações reduziu o ritmo dos trabalhos no campo e atrasou as etapas de secagem e beneficiamento dos grãos, retardando a chegada efetiva do café novo ao mercado. Nas regiões do Sul de Minas Gerais, Cerrado Mineiro e Mogiana, as chuvas também provocaram queda de frutos, aumentando as preocupações com a qualidade do café arábica.
De acordo com a Consultoria Agro Itaú BBA, o cenário levou o mercado a revisar suas expectativas para a safra. A avaliação inicial de que a nova produção recomporia rapidamente a disponibilidade do produto deu lugar a dúvidas sobre a velocidade de entrada da oferta e, principalmente, sobre a qualidade do café disponível. Com estoques ainda reduzidos e produtores mais cautelosos nas vendas, as preocupações com a oferta física passaram a sustentar a valorização das cotações nas bolsas internacionais.
Além das incertezas sobre a safra atual, o mercado voltou a incorporar um prêmio de risco climático. A perspectiva de um El Niño mais intenso no segundo semestre ampliou as dúvidas em relação ao desenvolvimento da safra 2027/28, aumentando a sensibilidade dos agentes às condições climáticas, à qualidade dos grãos e à disponibilidade física do produto.
Segundo a Consultoria Agro Itaú BBA, esse conjunto de fatores impulsionou uma forte valorização das cotações internacionais. O contrato de café arábica negociado em Nova York avançou 16% em apenas um dia e atingiu 350 cents por libra-peso no vencimento setembro de 2026, em 6 de julho. O movimento foi intensificado por fatores técnicos e financeiros, com ajustes de posições dos fundos de investimento. O mercado de robusta também acompanhou a alta, e as cotações em Londres subiram 4%, alcançando US$ 4.064 por tonelada no mesmo período.
Após esse movimento, os preços devolveram parte dos ganhos à medida que o mercado absorveu o impacto inicial e investidores realizaram lucros. Em 23 de julho, o contrato em Nova York encerrou o dia cotado a 309,40 cents por libra-peso. Ainda assim, os preços permaneceram elevados, sustentados pelo dólar mais fraco, pelo atraso da colheita e pelas preocupações com a disponibilidade de cafés de melhor qualidade.
No mercado físico brasileiro, a recuperação do café arábica ocorreu em ritmo inferior ao observado em Nova York. Segundo a consultoria, desde o início de junho o preço do grão avançou 11%, chegando a R$ 1.701 por saca em 22 de julho, enquanto o primeiro vencimento da bolsa norte-americana acumulou alta de 21,5%. Já o café conilon registrou valorização de 15%, para R$ 1.182 por saca, desempenho ligeiramente superior ao avanço de 13,6% do robusta em Londres. Esse comportamento ampliou novamente o diferencial do arábica, que atingiu média de -79 cents por libra-peso na parcial de julho, abaixo da média de -40 cents registrada nos últimos cinco anos.
A Consultoria Agro Itaú BBA destaca que a colheita brasileira continua em ritmo inferior ao observado no mesmo período do ano passado e que a chegada do café novo ao mercado permanece mais lenta do que o esperado devido ao tempo necessário para secagem, beneficiamento e preparação para comercialização. Diante desse cenário, o mercado deve continuar acompanhando o avanço da colheita, o aumento da disponibilidade física e os resultados das avaliações de qualidade.
As preocupações com a oferta física deslocaram toda a curva de preços para patamares mais elevados, com os maiores ganhos concentrados nos contratos de setembro e dezembro de 2026. Para os vencimentos a partir de março de 2027, porém, a curva já incorpora a expectativa de maior disponibilidade de café em razão da projeção de uma safra recorde no Brasil, mantendo maior estabilidade em dólar. Em reais, o efeito do câmbio faz com que a estrutura volte a apresentar inclinação positiva, compatível com um cenário de aumento da oferta ao longo de 2027.
A recente valorização dos preços voltou a abrir uma oportunidade de comercialização para os produtores. Conforme a análise da Consultoria Agro Itaú BBA, as margens para a próxima safra permanecem positivas e as relações de troca com fertilizantes seguem historicamente favoráveis, especialmente para ureia e cloreto de potássio (KCl). Mesmo com o MAP ainda em níveis elevados, o indicador voltou a se aproximar do observado em 2025, favorecendo a aquisição do insumo. A consultoria ressalta que, diante da volatilidade do mercado, estratégias de proteção de preços ganham importância para garantir margens e reduzir riscos.
No dia 22 de julho, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos divulgou suas primeiras estimativas consolidadas para a safra global de café 2026/27. Os números reforçam a expectativa de ampliação da oferta mundial, com produção estimada em 190 milhões de sacas, crescimento de 6,1% sobre o ciclo anterior. O avanço é liderado pela recuperação da produção brasileira e também por aumentos registrados em países como Vietnã, Colômbia e Etiópia.
Do lado da demanda, o USDA projeta consumo global de 180 milhões de sacas, alta de 3,6% em relação à safra 2025/26. Como o crescimento da produção supera o avanço do consumo, o mercado deverá registrar superávit de 9,9 milhões de sacas em 2026/27, favorecendo a recomposição dos estoques globais.
Segundo o USDA, os estoques finais mundiais devem atingir 26 milhões de sacas, crescimento de 7,8% em relação às 24 milhões de sacas estimadas para 2025/26. Com isso, a relação entre estoques e consumo sobe de 14% para 15%, indicando recuperação gradual da disponibilidade global, embora ainda permaneça abaixo dos níveis observados no início da década. O órgão ressalta que há diferenças entre o estoque final calculado diretamente pelo balanço de oferta e demanda e o estoque final estimado em suas projeções.
Para o Brasil, o USDA estima produção de 71,9 milhões de sacas em 2026/27, crescimento de 14,1% sobre a safra anterior e novo recorde histórico. O resultado é sustentado principalmente pela recuperação da produção de café arábica, favorecida pela bienalidade positiva, pelas condições climáticas mais favoráveis durante o desenvolvimento da lavoura e pela expansão de áreas cultivadas. A produção de arábica é projetada em 47,5 milhões de sacas, alta de 25%, enquanto o robusta deverá alcançar 24,4 milhões de sacas, volume 2,4% inferior ao registrado em 2025/26.
A maior safra amplia a disponibilidade doméstica e permite a recuperação do excedente exportável. O USDA projeta exportações brasileiras de café verde de 49,4 milhões de sacas em 2026/27, alta de 29,6% frente às 37,9 milhões de sacas estimadas para o ciclo anterior. Segundo a análise, a expansão ocorre após uma temporada marcada por oferta restrita, estoques reduzidos e menor disponibilidade de café, fatores que limitaram os embarques brasileiros.
Para a safra 2026/27, o USDA avalia que a recuperação da produção brasileira, especialmente de arábica, amplia a oferta disponível para exportação e tende a reduzir as restrições observadas no último ciclo. O órgão também destaca que os dados mais recentes do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil indicam melhora gradual no fluxo de embarques ao longo dos últimos meses, acompanhando o avanço da colheita. A expectativa é que a maior produção permita ao Brasil ampliar as exportações e reforçar sua posição como principal fornecedor mundial de café.
O consumo doméstico brasileiro deverá permanecer praticamente estável em 22,4 milhões de sacas, crescimento de apenas 0,5% em relação ao ciclo anterior. Com produção superior ao avanço da demanda, o USDA estima que os estoques finais do Brasil aumentem de 3,9 milhões para 4,4 milhões de sacas, avanço de 13,6% na comparação anual.
Foto: Pixabay
Por: Seane Lennon / Agrolink
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