22/06/2022 10:00:00

Como a transmissão automática vai ganhar ainda mais mercado nos carros brasileiros

Tecnologia já está presente em mais da metade dos veículos novos e a tendência é de crescimento acelerado para os próximos anos

Como a transmissão automática vai ganhar ainda mais mercado nos carros brasileiros - Notícias - Mato Grosso digital
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O mercado automotivo brasileiro passou por diversas mudanças nos últimos anos, ocasionadas pelas crises políticas e econômicas, pandemia, aumento na procura por SUVs, adoção de novas tecnologias e mudança no perfil do consumidor, que por consequência mudaram o tipo de veículo comercializado no país. 

Hoje temos carros mais seguros, eficientes e tecnológicos quando comparados aos comercializados há 10 anos, e a transmissão automática é um importante fator dessas mudanças. Se em 2012 menos de 15% dos veículos vendidos no Brasil possuíam algum tipo de câmbio automático (conversor de torque, CVT, AMT ou DCT), hoje o sistema está presente em mais da metade dos veículos comercializados e a tendência é subir ainda mais.
 
 
 
 
 
 

No gráfico abaixo temos o volume de carros com transmissão manual versus as outras opções - além da participação do não manual no mercado brasileiro – e podemos ver que o momento da virada aconteceu entre 2019 e 2020.
 
 
 
 
 

Os motivos para o crescente interesse pela transmissão automática
Não existe um motivo único para explicar essa mudança, mas um fator importante foi o lançamento do Chevrolet Onix e do Hyundai HB20 (dois veículos compactos de alto volume) no final de 2012, ambos oferecendo esse tipo de transmissão a um preço mais acessível, e que se tornaram os carros mais vendidos no Brasil. Antes destes lançamentos, a transmissão automática era encontrada quase que exclusivamente em sedãs e hatchbacks médios e a oferta no segmento de entrada era muito baixo, boa parte usando a transmissão automatizada (AMT) que não emplacou muito e durou pouco tempo no mercado. Hoje, praticamente todos os veículos compactos lançados após HB20 e Onix são ofertados com algum tipo de transmissão não manual.
 
Outro fator importante foi o crescimento nas vendas dos veículos utilitários esportivos (SUVs), com impacto maior a partir de 2015 pelo lançamento de modelos compactos para competir com o Ford Ecosport. Todos esses SUVs eram e são oferecidos com algum tipo de transmissão automática. Para o consumidor deste segmento, a tecnologia é mais desejada do que em hatchs e sedãs de entrada, sendo mais de 90% dos SUVs vendidos possuindo esse tipo de transmissão.
 
O fato do preço médio dos carros vendidos no Brasil ter aumentado substancialmente nos últimos anos também colaborou para a mudança do mercado e, como consequência, muitos dos consumidores que compravam veículos de entrada zero quilometro passaram a investir em seminovos e usados. Com isso, o perfil do consumidor de carro novo passou a ser o de poder aquisitivo mais alto e a diferença de preço de um carro manual para o automático não é tão relevante para este consumidor. No gráfico abaixo podemos ver como a tabela média do veículo vendido no Brasil aumentou nos últimos anos (já considerando a inflação) e como a participação da transmissão automática acompanhou o aumento, sendo inclusive um dos responsáveis por esse encarecimento.
 
 
 
 

Tecnologia continuará desejada pelo consumidor
Como visto no primeiro gráfico, a S&P Global prevê que a participação da transmissão automática no mercado brasileiro continuará crescendo, devendo ultrapassar - a partir de 2028 – a marca de 70%. Outro ponto interessante é que a venda de carro manual deverá se manter estável em 1 milhão de unidades, portanto a expansão do nosso mercado será basicamente de transmissão não manual.

Já no gráfico abaixo temos o volume de vendas no Brasil e a participação das SUVs no nosso mercado:
 
 
 
 
 
 
 
 
De acordo com a previsão de vendas de veículos leves da S&P Global, o segmento de SUVs - que ganhou muita participação nos últimos anos e deverá aumentar ainda mais - se tornou o mais vendido do Brasil, ultrapassando os hatchbacks em 2021. Na nossa previsão, o segmento terá 45% do mercado em 2032 contra 22% dos hatchs. Os principais lançamentos dos próximos anos serão SUVs e praticamente todos devem chegar com transmissão automática, até mesmo os futuros SUVs compactos, menores que os atuais, de aproximadamente 4 metros de comprimento.
 
Algumas montadoras devem substituir seus hatchs de entrada por esses novos utilitários esportivos ou CUVs menores como Fiat e VW. E mesmo com a diminuição de dimensão das SUVs, a participação da transmissão automática nesse segmento não deverá cair muito.

A eletrificação também trará impacto pelo fato da maioria dos veículos híbridos e elétricos não usarem transmissão manual. No Brasil, a eletrificação está lenta e deve demorar mais para acontecer do que na Europa, China e Estados Unidos, mas nossa previsão é que seja um caminho sem volta. As metas do Proconve e do Rota 2030 (que ainda não foram definidas para 2027 e 2032) devem exigir uma penetração maior deste tipo de veículos e projetamos por volta de 50% do mercado brasileiro eletrificado (considerando mild-hybrid, full-hybrid, plug-in e puramente elétrico) em 2032, tendo um impacto grande no mercado de transmissão automática.
 
 
Produção local tem escala para crescer, mas podem faltar investimentos
Pelo mercado atual e nossa perspectiva para o futuro, podemos ver que, em termos de volume, existe escala para produção local de transmissão automática, CVT ou DCT. Em maio de 2022 a Honda anunciou a montagem de sua transmissão CVT no Brasil para equipar os veículos produzidos localmente. Esse anúncio pode mudar o cenário e incentivar outras montadoras ou fornecedores a produzir localmente por causa do ex-tarifário (isenção do imposto de importação para tecnologias não produzidas localmente). Considerando a produção da Honda, é possível que algumas montadoras percam esse incentivo e passem a pagar imposto para importar a transmissão CVT e com isso a produção ou montagem no Brasil pode se tornar mais atraente.

Ainda existem alguns pontos a serem considerados antes da decisão de se produzir localmente, como as plantas fora do Brasil que produzem algum tipo de transmissão automática e possuem capacidade de atender a nossa demanda, evitando o alto investimento necessário para iniciar a produção local. Outro fator considerado é a instabilidade do mercado brasileiro, que acaba não transmitindo segurança para investimentos. O fato de o mercado automotivo global estar priorizando os investimentos na eletrificação pode dificultar a liberação de dinheiro por parte da matriz das montadoras e de seus fornecedores para a abertura ou modificação de uma planta no Brasil para a produção de um novo tipo de transmissão.

Outro ponto importante que pode pesar contra a produção local é o fato de que cada montadora ou modelo de veículo utiliza um modelo de transmissão próprio. Mesmo que exista um volume que justifique o fornecedor produzir a transmissão localmente, ele precisaria dividir sua produção em diferentes linhas de produtos, o que inevitavelmente inviabilizaria essa produção local.

Considerando a previsão atual da S&P Global, que apresenta uma alta penetração de transmissão automática, somada ao fato de algumas montadoras poderem perder a isenção de imposto pelo ex-tarifário, o investimento para produção local se justificaria. Por outro lado, a escala e foco das matrizes, tanto das OEMs como dos fornecedores, na questão da eletrificação acabaria barrando os investimentos desse porte na região. Por causa disso, por enquanto, a S&P Global não esta considerando a produção de transmissão automática localmente, mas assim como a Honda, montadoras de maiores volumes podem conseguir apoio das matrizes para investimentos no Brasil. 
 
Victor Silva é analista principal de powertrain da S&P Global com 15 anos de experiencia no mercado automotivo. A S&P Global (IHS Markit agora é parte da S&P Global) atua na oferta de informações, análises e soluções críticas para os principais setores e mercados que orientam a economia em todo o mundo.

 
*Este texto traz a opinião do autor e não reflete, necessariamente, o posicionamento editorial de Automotive Business
 
 
 
 

 

 

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